Entrevista a Prof. José Hermano Saraiva
Entrevista a Prof. José Hermano Saraiva
A que se deve a sua admiração por Salazar?
Milhões de portugueses estiveram com esse homem, à excepção de uma pequena minoria. Salazar não era como estes de agora, que se encarrapitam todos para lá estar meia dúzia de meses. Ele não era nada democrata. A democracia quer dizer que o maior número tem razão. Alguém acredita nisto? Neste país de analfabetos, o maior número é de primatas e são eles que mandam.
Serviu o Estado Novo. Não se arrepende de nada?
Não. Quanto mais o tempo passa, mais admiro Salazar. Conto-lhe uma história: numa altura em que Salazar estava doente com uma pneumonia, Supico Pinto disse-lhe que tinha uma excelente notícia: havia sido descoberto petróleo em Cabina. Salazar, debaixo da sua pneumonia, disse: “Só nos faltava mais essa. Estamos tramados!” Já sabia que isso ia atrair os americanos e a CIA. Foi isso que derrubou o regime.
Quando Salazar foi exonerado e substituído por Marcello Caetano, o senhor continuou como ministro da Educação. O antigo presidente do Conselho morreu sem saber que já não governava. Também fazia parte dos ministros que continuavam a ir a despacho?
Não. Sei que foi mandado de novo para o Palácio de S. Bento, sei que continuavam a chamar-lhe senhor Presidente, sei que se fazia uma triagem da imprensa que lhe permitiam ler. Ouvi dizer que dois terços do cérebro tinham sido destruídos por aquela hemorragia. Mas parece que andava, falava, via. Porém, nunca ninguém lhe deu a notícia de que já não era presidente do Conselho.
Estava de acordo com Marcello Caetano sobre a mudança de regime, a “evolução na continuidade”, como então se dizia?
Penso que a evolução na continuidade é uma expressão retórica. Não há possibilidade de evolução na continuidade. Salazar era contra a democracia, acreditava no governo das elites. Caetano acreditava na importância do voto.
É preciso levantar o moral da nação?
É. Não compreendo é que no momento em que se fala tanto em liberdade, se fale tão pouco em independência. Até porque a independência é a forma essencial da liberdade.
Quando faz esse alerta significa que a independência está de alguma forma ameaçada?
Creio que há pessoas que acreditam que ela está ameaçada e se resignam a isso. Vejo, por exemplo, com alarme, que deixou de se ensinar a História de Portugal aos portugueses. Pior: vejo pessoas envergonharem-se da História nacional, mas do que não conhecem – nunca um tão pequeno povo fez uma obra tão grande pelo entendimento entro todos os povos da Humanidade. Constato, tristemente, que em Portufal está na moda ser anti-patriota. O português culto deixou de ser patriota e pensa que o patriotismo é uma forma de paisagismo, rusticidade e sentimento rural.
Como comenta a sugestão do empresário José Manuel Mello para que “se começasse a fazer a Ibéria”?
Ele que vá dizer isso no país Basco ou na Catalunha que sofreram na pele a destruição dos valores culturais próprios, de que resultou a sua integração na tal Ibéria. Eu sou pelas pátrias. Creio que a Ibéria seria muito mais rica se respeitasse as fronteiras de alguns dos seus componentes.
A evolução do projecto europeu não vai contribuir para fragilizar o conceito de soberania nacional?
Pelo contrário. A razão porque a Europa é uma região extremamente rica de ideias, conceitos e de valores, está na diferença e nas identidades contrastantes. A Europa é tanto mais rica, quanto mais originais forem as pátrias. Experimente sintonizar uma rádio ou uma televisão de qualquer país da União Europeia e verá reclamos daquilo que é nacional. Aqui em Portugal, é que não...
A Expo 98 foi um dos eventos mais elogiados. Segundo li discorda do rumo temático que os responsáveis deram ao evento...
Inicialmente a exposição foi feita para comemorar os 500 anos da viagem de Vasco da Gama à Índia mas, na prática, evitou-se falar do assunto. Os Descobrimentos e a História de Portugal foram intencionalmente omitidos. Fazer uma exposição mundial só para limpar um bairro infestado, é pouco...
Pensa que aqui houve, mais uma vez, pudor em dar a conhecer a nossa História?
Não tenho dúvida. Os intelectuais portugueses enfermam de uma enorme falta de sentido nacional. É um defeito, da mesma forma que se é míope, gago ou se tem uma úlcera gástrica.
Criou polémica uma sua declaração em que disse que “Salazar era antifascista”. Como explica a reacção imediata de vários quadrantes?
Os fascismos tornaram-se odiosos pelo seu grau de violência, matando milhares de pessoas e conduziram os países a situações de penúria atrozes. Por isso admito que muitas pessoas por pura inocência e outras tantas por má fé resolvessem rotular com essa odiosa palavra o Governo do Dr. Salazar. Os governos têm tanta dificuldade em se justificar a si próprios que se atribuem esta coisa miraculosa: “Livraram-nos do cancro do fascismo”. É inventar uma atitude que me parece verdadeiramente difamadora e caluniosa.
Nos discursos pessoais do Dr. Salazar há a condenação aberta dos fascismos. Ele põe em prática as doutrinas das encíclicas cristãs de Leão XIII. Os fascismos eram regimes autoritários, sem dúvida, mas o Estado português não era pelo progresso industrial (era conservador e ruralista) e não defendia o apoio às milícias armadas profundamente anti-religiosas que substituíam os partidos.







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